Oficina de criação coletiva com mulheres em ilhas ultraperiféricas como os Açores

O que fazemos · Arte

Teatro comunitário como ato de voz

Cada edição d'A Costela de Lilith é uma residência artística comunitária. Mulheres de cada ilha tornam-se coautoras de um espetáculo que nasce das suas próprias histórias.

O projeto

Uma criação que nasce da comunidade

A Costela de Lilith é um projeto de teatro comunitário que se reinventa a cada edição. Cada ilha dos Açores é um território novo — com a sua própria paisagem, memória e voz — e por isso cada criação é diferente da anterior. Durante vários meses, um grupo de mulheres — sem qualquer experiência prévia exigida — encontra-se semanalmente para transformar as suas histórias de vida em matéria cénica.

O ponto de partida é o mito de Lilith: a mulher que recusou submeter-se e foi apagada da narrativa oficial. A partir dessa figura, o projeto pergunta que histórias de mulheres continuam por contar em cada território insular — e devolve-as ao espaço público, em cena.

O resultado é sempre duplo: um espetáculo apresentado na própria ilha, coescrito pelas participantes, e uma rede de cuidado e confiança que permanece muito depois da última apresentação.

Para quem
Mulheres a partir dos 16 anos, de qualquer origem, profissão ou percurso. Não é preciso experiência em teatro.
Duração
3 a 6 meses por ilha: mapeamento, oficinas semanais, ensaios intensivos e apresentações públicas.
Objetivos
Levar o projeto de ilha em ilha, fazendo da arte o centro de cada criação: em cada ilha, uma obra teatral inédita e coletiva. A arte não é meio para outra área — é o próprio encontro onde saúde, direitos humanos e empreendedorismo se cruzam sem deixarem de ser arte.
Resultado
Espetáculo comunitário, instalação ou outra forma de arte — conforme o que cada ilha propõe.

Metodologia

Um processo participativo em cinco fases

A metodologia cruza teatro do oprimido, pedagogia somática de Jacques Lecoq e escrita autobiográfica. Nenhuma fase é aplicada de forma rígida: o ritmo de cada ilha define quanto tempo cada etapa demora.

01

Mapeamento do território

Imersão em cada ilha antes de qualquer oficina: comunidades, parceiros locais, tensões sociais. A paisagem e a cultura da ilha tornam-se matéria dramatúrgica.

02

Recolha de histórias

Cerca de 30 mulheres de origens diversas encontram-se semanalmente. Através de exercícios somáticos inspirados em Jacques Lecoq, exploram a memória autobiográfica pelo corpo.

03

Dramaturgia coletiva

Histórias, gestos e imagens das oficinas compõem um texto partilhado. As participantes votam o que fica. A dramaturgia emerge na horizontal — sem voz autoral única.

04

Design de espaço e figurino

Cenografia e figurinos construídos com materiais locais e reciclados. As coroas tecidas à mão e os panos pintados fazem do design um ato de autoria comunitária.

05

Espetáculo e documentário

Apresentações públicas em espaços não convencionais — museus, praças, salões. Um documentário curto é exibido gratuitamente em todas as freguesias.

Como é uma sessão

  1. Círculo de chegada

    Cada mulher diz como chega. Ninguém entra em cena sem ser ouvida primeiro.

  2. Corpo e voz

    Aquecimento somático: respiração, peso, jogo. O corpo desbloqueia antes da palavra.

  3. Improvisação

    Exercícios a partir de uma memória, um objeto ou um lugar da ilha.

  4. Escrita e partilha

    O que emergiu é escrito e lido em voz alta. Torna-se material da dramaturgia.

Ensaio comunitário com figurinos vermelhos

Princípios

O que sustenta o processo

Horizontalidade
Não há texto prévio nem voz autoral única: as decisões dramatúrgicas são tomadas em conjunto pelas participantes.
O corpo como arquivo
A memória é convocada pelo corpo antes de ser palavra. O exercício somático precede sempre a escrita.
Território como matéria
Cada ilha oferece a sua paisagem, a sua língua e os seus materiais — nada é importado de fora.
Cuidado e continuidade
O grupo mantém-se depois do espetáculo: a rede criada é parte do resultado artístico.

Percurso

Da origem, em 2022, a São Jorge

O projeto nasceu no Faial, em 2022, de uma investigação de mestrado sobre autoestima e saúde pública, e percorreu desde então quatro ilhas dos Açores.

2022

Faial

A origem: oficinas nascidas da tese de mestrado e publicação de uma antologia de poesia escrita pelas participantes.

2022–23

São Miguel

Oficinas e apresentações comunitárias, com alargamento da rede de parceiros.

2024

Flores

Estreia do espetáculo «Depois da Bruma», o texto dramaturógico da ilha das Flores, com 30 participantes.

2025

São Jorge

Documentário «Domingo a Domingo», exibido gratuitamente em 8 freguesias da ilha.

Cena do espetáculo com figurinos vermelhos e luz quente

Design

Feito à mão, local, coletivo

O design não é aplicado no fim do processo — é o processo. Cada elemento visual é construído pela comunidade a partir de materiais locais ou reciclados.

Coroas e toucados
Tecidos à mão com corda, arame e fibras naturais de cada ilha. Cada coroa é única e representa a história de uma mulher.
Figurino e tecido
Panos vermelhos e laranja — a identidade cromática do projeto. O vermelho é sangue, fogo, Atlântico e resistência.
Cenografia
Telões pintados coletivamente e objetos encontrados na ilha: redes de pesca, alfaias agrícolas, mobiliário antigo.
Público e cena durante uma apresentação em São Jorge

Próxima edição

São Jorge 2026 — seis grupos numa só criação

A edição mais ambiciosa do projeto: operárias da fábrica de atum, trabalhadoras das queijarias, alunas das escolas da Calheta, filarmónicas, coro e um grupo comunitário aberto.

Galeria

Em cena

Cena em luz azul com três intérpretesMomento do espetáculo com figurinos vermelhosCoroas e toucados feitos à mão pelas participantes